sábado, 7 de abril de 2007

Central do Brasil - Carta

Petrolina, 07 de Abril de 2007

Olá, como vai?
Faz tanto tempo que a gente não escreve uma simples carta para os nossos amigos, amores, familiares, acho até que esquecemos o quão prazeiroso é receber aquele papel cheio de palavras escritas à mão, contando, confessando coisas que muitas vezes não teríamos coragem de falar pessoalmente.
O cheiro do perfume que passou da mão de quem escrevia, para o papel; os beijos distribuídos a granel por entre as letras, ora desenhadas, ora num emaranhado indecifrável; as boas notícias que se apresentaram em letras alegres...as tristes, manchadas pelas lágrimas que teimaram em cair...A carta leva um pouquinho da nossa alma, justamente o que o e-mail esconde.
O e-mail, a gente lê e descarta, muitas vezes até sem responder.
A carta, é viva, palpável, impossível ser indiferente a ela!
Então, escrevamos cartas a quem amamos, a quem, devemos desculpas ou simplesmente a quem queiramos escrever, o efeito disso será surpreendente e as respostas não tardarão em chegar, claro que no dia em que você menos esperar.
Escreva uma carta e ela se responsabilizará em multiplicar-se. Principalmente se for enviada com carinho.
Mando abraços aos seus familiares e espero que, apesar das distâncias, continuemos presentes na vida um do outro.
Saudades!
José

Escreve logo essa carta!

Filme Central do Brasil

Quando escreví, tive uma surpresa


Uma luta desesperada e inglória de um pai na tentativa de evitar sofrimentos a um filho. Assim são as cartas enviadas pelo historiador Joel Rufino a Nelson, então com 8 anos, durante o tempo em que esteve encarcerado como preso político no Presídio do Hipódromo, em São Paulo, entre 1973 e 1974.
Assim como o protagonista do filme "A vida é bela", Joel fez de tudo para esconder uma trágica verdade de seu filho. Mas seu objetivo não foi alcançado: sem ver o pai há muito tempo, Nelsinho entende que fora abandonado. Surge para Joel o maior dos desafios: explicar a uma criança que está preso, mas não é bandido.
Desde as primeiras cartas, ele dizia que tinha sido "convidado" pelo governo brasileiro a "contar" algumas coisas que tinha feito. "Por exemplo, eu dei algumas aulas sobre coisas que o nosso governo não gosta que se conte, escrevi livros que nosso governo também não gosta." Joel dizia que sua vida seria decidida por um juiz e apostava: "Ele vai dizer: seu Joel, não tem mal algum o senhor ter as suas opiniões. Pode ir embora." Mas, ao contrário, ele foi ficando...
Em seus relatos maquiados, Joel dizia que estava "hospedado" com mais 40 pessoas "que também não concordavam com o governo", entre engenheiros, estudantes, operários, professores, camponeses. Contava que faziam a comida, jogavam bola três vezes por semana ("eu estou com as canelas cheias de calombos porque todas as vezes que vou fazer um gol aparece um "grossoí para me chutar"), e que estavam aprendendo trabalhos manuais "bacanas" como fazer bolsa, colares, canetas, chinelos etc. De noite, viam TV ó até o dia em que o dono da televisão "se mudou" (foi solto) e ficaram sem poder assistir às novelas.
Numa tentativa de se fazer presente na rotina escolar do filho, ele treina Inglês nas cartas, conta histórias como a de Zumbi dos Palmares, fala de livros como O velho e o mar, além de sugerir títulos infantis que lia em jornais velhos do presídio.
Depois que Joel recebe uma caixinha de hidrocores coloridos do filho, passa a escrever as cartas usando cada cor para um trecho. E se exibe: "Meus amigos morrem de inveja, só eu tenho hidrocores coloridos!".
Todas as cartas tinham o carimbo do presídio e foram guardadas por Teresa Garbayo dos Santos, a mãe de Nelsinho. É dela o alerta enviado a Joel sobre a necessidade de se esclarecer os fatos para o filho, "que começava a viver o afastamento como abandono." Ao ser informado de tudo, Nelson entrou debaixo da cama e lá permaneceu abraçado à gaiola com seu passarinho: "assim ele expressou a sua dor ao saber que o pai estava preso", relembra Teresa. As cartas que Nelsinho escreveu para o pai ficaram retidas na prisão.
Do site: http://www.editoras.com/rocco/022281.htm


Vale a pena dar uma olhadinha nas cartas e postais enviadas por Anne Frank antes e durante a segunda guerra:
http://www.parceria.nl/cultura/cul060418_portugues