
Louco para alguns, gênio para os outros.
Da sucata e do lixo, ele produzia uma série de trabalhos que apenas pretendiam marcar a passagem de Deus na terra.
Como é de costume, a sociedade faz pouco caso das pessoas que, por doença, opção ou um motivo qualquer, não se enquadram em determinados padrões considerados “normais”. Esse era o caso de Arthur Bispo do Rosário, hoje considerado um gênio das artes plásticas brasileiras, com trabalhos expostos em muitas salas fora do Brasil. Essa consagração se tornou concreta apenas no final de sua vida. Por muitos anos, ele esteve internado na Colônia Juliano Moreira, o maior e mais antigo manicômio do Rio de Janeiro, sob a acusação de ser um doente mental.
Ele veio de uma das muitas famílias pobres do Vale do Cotinguiba - SE e depois de passar pela marinha, foi trabalhar como empregado de uma influente família carioca, que continuou garantindo-lhe a casa e a comida em troca de serviços.
Tudo transcorria dessa forma até a véspera do Natal de 1938, quando Bispo presenciou a chegada de um luminoso cortejo de anjos e soldados celestes. Eles lhe traziam uma mensagem de Deus: “Reconstrua o universo e registre a minha passagem aqui na terra”. Sob “ordens divinas”, ele deixa a casa dos patrões e vai para uma igreja, onde se apresenta como o homem “que veio julgar os vivos e os mortos”. Ninguém acredita. O fato é que após esse episódio, o visionário começa sua peregrinação por clinicas e hospícios, até chegar à Juliano Moreira.
Os registros do manicômio afirmavam que o ex-marinheiro sofria de “esquizofrenia parenóide”. O diagnóstico frio o condenava a um polêmico tratamento muito usado na época: o eletrochoque. Mas ele conseguiu escapar da sentença e passou a impor respeito. O segredo estava no boxe, esporte que praticou desde a época da Marinha. Com a condição de “xerife”, ele fica livre para cumprir sua missão de registrar a passagem de Deus pela Terra.
Esses registros aparecem na forma de vários estandartes, murais, bordados e outras peças feitas a partir de panos velhos, da sucata e do lixo. Na verdade, todos eles registram uma variedade de cores, detalhes, escritos e temas. Excertos de sua vida, fotos e textos das revistas Manchete e O Cruzeiro, a fé interior, os seus tempos de marinheiro e – sobretudo – a história do Juízo Final. Era nesse momento em que Bispo do Rosário dizia ter que apresentar todas essas obras diante de Deus, ao “fazer a passagem” para o além. No longo retiro da colônia, a preparação para esse momento foi intensa.
Bispo costumava dizer que “um dia, simplesmente apareceu no mundo”, para não deixar indícios de sua infância e adolescência. Segundo o pesquisador, os trabalhos do sergipano contém justamente o contrário. “Entre os muitos detalhes impressos ali, estão elementos da religiosidade popular, da coroação dos Reis Negros, do Cacumbi, do Reisado, da Chegança e do artesanato, que está muito presente através dos trançados e das técnicas de bordado que ele usava principalmente escrevendo em alto-relevo”, explicou ele.
Arthur já percebia que seus estandartes e bordados chamavam a atenção das pessoas, mas não teve tempo de conferir sua consagração como artista. Na noite de 5 de julho de 1989, provável data em que completara 80 anos, ele encerrou seu longo retiro preparatório e foi se apresentar a Deus, objetivo que acalentara por toda sua vida. (Gabriel Damásio)
Da sucata e do lixo, ele produzia uma série de trabalhos que apenas pretendiam marcar a passagem de Deus na terra.
Como é de costume, a sociedade faz pouco caso das pessoas que, por doença, opção ou um motivo qualquer, não se enquadram em determinados padrões considerados “normais”. Esse era o caso de Arthur Bispo do Rosário, hoje considerado um gênio das artes plásticas brasileiras, com trabalhos expostos em muitas salas fora do Brasil. Essa consagração se tornou concreta apenas no final de sua vida. Por muitos anos, ele esteve internado na Colônia Juliano Moreira, o maior e mais antigo manicômio do Rio de Janeiro, sob a acusação de ser um doente mental.
Ele veio de uma das muitas famílias pobres do Vale do Cotinguiba - SE e depois de passar pela marinha, foi trabalhar como empregado de uma influente família carioca, que continuou garantindo-lhe a casa e a comida em troca de serviços.
Tudo transcorria dessa forma até a véspera do Natal de 1938, quando Bispo presenciou a chegada de um luminoso cortejo de anjos e soldados celestes. Eles lhe traziam uma mensagem de Deus: “Reconstrua o universo e registre a minha passagem aqui na terra”. Sob “ordens divinas”, ele deixa a casa dos patrões e vai para uma igreja, onde se apresenta como o homem “que veio julgar os vivos e os mortos”. Ninguém acredita. O fato é que após esse episódio, o visionário começa sua peregrinação por clinicas e hospícios, até chegar à Juliano Moreira.
Os registros do manicômio afirmavam que o ex-marinheiro sofria de “esquizofrenia parenóide”. O diagnóstico frio o condenava a um polêmico tratamento muito usado na época: o eletrochoque. Mas ele conseguiu escapar da sentença e passou a impor respeito. O segredo estava no boxe, esporte que praticou desde a época da Marinha. Com a condição de “xerife”, ele fica livre para cumprir sua missão de registrar a passagem de Deus pela Terra.
Esses registros aparecem na forma de vários estandartes, murais, bordados e outras peças feitas a partir de panos velhos, da sucata e do lixo. Na verdade, todos eles registram uma variedade de cores, detalhes, escritos e temas. Excertos de sua vida, fotos e textos das revistas Manchete e O Cruzeiro, a fé interior, os seus tempos de marinheiro e – sobretudo – a história do Juízo Final. Era nesse momento em que Bispo do Rosário dizia ter que apresentar todas essas obras diante de Deus, ao “fazer a passagem” para o além. No longo retiro da colônia, a preparação para esse momento foi intensa.
Bispo costumava dizer que “um dia, simplesmente apareceu no mundo”, para não deixar indícios de sua infância e adolescência. Segundo o pesquisador, os trabalhos do sergipano contém justamente o contrário. “Entre os muitos detalhes impressos ali, estão elementos da religiosidade popular, da coroação dos Reis Negros, do Cacumbi, do Reisado, da Chegança e do artesanato, que está muito presente através dos trançados e das técnicas de bordado que ele usava principalmente escrevendo em alto-relevo”, explicou ele.
Arthur já percebia que seus estandartes e bordados chamavam a atenção das pessoas, mas não teve tempo de conferir sua consagração como artista. Na noite de 5 de julho de 1989, provável data em que completara 80 anos, ele encerrou seu longo retiro preparatório e foi se apresentar a Deus, objetivo que acalentara por toda sua vida. (Gabriel Damásio)
Leia esta incrível matéria na íntegra: http://www.rnufs.ufs.br/rede/radio/news0034.asp
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