Há vozes que a gente ouve e passam sem nos chamar a atenção; outras, no entanto, vêm, ás vezes de modo lento, e, como um sussurro, se instalam na nossa cabeça e ficam fixadas em algum ponto do cérebro o qual identifica um misto de emoções entre o espanto e o encantamento. São raras as vezes que isso acontece, mas quando surge é como se a vida fosse maior do que ela é, exatamente porque há no mundo coisas cuja criação se constrói do mistério de ainda ser diferente e espantar num mundo tão cheio de simulações e cópias.Falo isso porque uma estranha figura surgida do underground de Nova York e de aparência andrógina causa um estranho encantamento em quem o escuta. Ao ouvi-lo é impossível não despertar um repúdio imediato ou o desejo de querer ouvi-lo mais. Conheço pessoas que pertencem ao primeiro grupo e que o classificaram de cantor de funerais; eu pertenço ao segundo grupo. O nome dele: Antony e sua banda se chama The Jhonsons.
Inglês de nascimento, Antony foi para Nova York nos anos 90 onde cursou teatro experimental, abandonando-o logo depois, e por lá montou uma banda performática, fazendo shows em casas noturnas de público, por assim dizer, mais alternativo. Foi aí que ele forjou seu estilo, cuja marca é a ambigüidade de gênero, e criou um mundo onde habitam travestis e transexuais ou seres em transformação. Aliado a isso tudo, veio uma música forte e melódica cujas bases são feitas com piano, cordas e instrumentos bem rock’n’roll, como guitarras e bateria. O resultado dessa mistura, aliada a sua voz, que alguns amigos meus já confundiram com Nina Simone, veio num reconhecimento cada vez maior de seu talento e sua saída dos espaços underground nova iorquinos para as platéias da Europa.
Diz a lenda que Lou Reed ao vê-lo cantar, chorou de emoção e o convidou para cantar sua bela Perfect Day ( do já clássico Transformer) e outras participações. Lenda ou não, o fato é que Antony está muito bem acompanhado, representando um grupo de artistas que, se não renovam a musica pop e o rock, nos dá algo mais do que o habitual, nos fazendo sair do lugar-comum dos hits radiofônicos. Não à toa que em seu disco de 2005, chamado I’m a bird now, ele tem as companhias luxuosas do já citado Lou Reed, do super hypado-fã-deCaetano-e-neo-hippie Devendra Banhart, de Rufus Wainwright e de uma de suas maiores referências, Boy George.
Além disso, ele ainda cantou em uma das faixas das crianças grandes do Cocorosie (que, inclusive, fizeram show no Recife) e, de quebra, está cantando com Björk no novo disco da cantora islandesa, chamado Volta, e que será lançado em maio no Brasil. Além disso, ele abriu, há alguns anos, o filme Vida Selvagem, cantando á capela, rodeado de travestis, uma música que fala sobre morte e renascimento. Bizarro? Não. Obscuro? Muito menos. Acho que só escutando-o (e neste caso, vendo-o) para saber.
Para os curiosos em ver esta figura e, lógico, que desejam ouvir sua voz, recomendo algumas canções que não estão no disco citado acima; São elas: Twilight e Rapture. Esta última só reforça a idéia de que às vezes a criação supera seu criador em beleza e harmonia. Ouçam e saberão o que falo. Ou então ouçam o I’m a bird now da primeira à última faixa, destacando Hope there’s someone, que já foi inesperadamente usada até pela Globo, ou Fistfull of Love com abertura feita por Lou Reed e letra cujo eu-lírico fala de uma relação amorosa onde os punhos são usados não necessariamente para bater. Perverso? Talvez, mas esse rapaz supera, e muito, os comentários chocados ao seu estilo. Não à toa, ele falou certa vez que o novo punk é a delicadeza. Ouçam-no e tirem suas conclusões.
P.S.
Aproveitando esse momento estranho ( rsrsrssrsrs ) dou uma dica de leitura de poemas, ou melhor, de poeta. Leiam Valdo Mota, poeta de Vitória do espírito Santo cuja poesia mistura Deus e coisas menos sagradas. Depois posto algum poema dele aqui.
Afonso Henrique
