sábado, 24 de março de 2007

Atchim 2 !!!!!!!!!!!!! Versos íntimos


Acho tão bonito aquelas pessoas que decoram palavra por palavra a sua poesia favorita.
"De tudo ao meu amor serei atento..."
Se é verdade que as palavras, quando ditas, permanecem flutuando para sempre em algum lugar do infinito, deve haver um imenso coral recitando eternamente o Soneto da fidelidade, de Vinícius.
Eu, mestre em esquecer das coisas, essa semana resolví aproveitar o marasmo do resfriado (cama, chazinho, sopinha, etecétera) para tentar decorar uma poesia, para quem sabe um dia, declamar pra algum ouvinte paciente.
Essa vontade, me trouxe à memória um fato curioso ocorrido no ano retrasado.

Numa noite, voltando de um bar, depois de vários copos de Cuba Libre, fui surpreendido pelo telefonema desesperado de Rui, um amigo, me pedindo ajuda para socorrer um amigo seu que acabara de sofrer um grave acidente de moto.
Corrí para o local indicado e lá estava, estendido no chão, completamente ensanguentado, em farrapos e aparentemente inconsciente, o dito cujo.
A pedido de Rui, permanecí no local enquanto ele buscava socorro médico.
Junto ao acidentado, observando-o, notei que sangrava pelo ouvido, o que era um péssimo sinal. Fiquei ainda mais apreensivo.
Chamei-o pelo nome, tentei de várias formas fazê-lo voltar à consciência até conseguir.
Entramos num diálogo improvável, onde a única razão era mantê-lo acordado, evitando que voltasse a ficar inconsciente e talvez entrasse em estado de coma. Não éramos amigos,(inclusive, nessa noite estávamos no mesmo bar, com turmas diferentes e até nos esbarramos sem pedirmos desculpas um ao outro) mas naquele instante nos tornamos velhos amigos, pelo menos por algumas horas.
Passado, futuro, presente se confundiam nas nossas conversas, mas sabíamos que a única coisa que existia alí era aquele fatídico presente.
Em dado momento, como que assistido por uma imensa platéia, ele começa a recitar, em voz alta:
"Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!..."

Foi assim que ouví, pela primeira vez uma poesia de Augusto dos Anjos. Declamada por um sujeito à beira da morte.
Hoje, talvez sensibilizado pelo vírus da gripe, (esta pantera!) percebí que naquele dia, naquela hora, também éramos poesia. Como versos de Augusto dos Anjos.
A poesia escrita, compacta tempo, sentimento, acontecimento, espaço...enfim, transforma o que não é palpável, abstrato, em algo concreto, letras, que ao serem pronunciadas, voltam à condição de abstrato. E nesse ciclo de transmutação, como no da água, que independente do seu estado líquido, sólido ou gasoso, continua sendo água, a arte e a vida são só dois estados diferentes da mesma coisa.
Sendo que a poesia, neste caso, é muito mais interessante, saiba o porquê: (FINAL DA HISTÓRIA, para os curiosos)
O cara não morreu. Armou o maior barraco no hospital, na hora de ser atendido, xingou Deus e o mundo, só não chamou o enfermeiro de santo.
Tinha bebido todas(e outras milongas mais) naquela noite e escapou fedendo de algum sequela mais séria ou mesmo da morte, já que apenas perdeu um pouco da audição e passou alguns dias com a cabeça enfaixada e cheio de escoriações.
Que belo exemplo, hein?
ah! hoje em dia nós não temos contato, mas o tesouro que ele me deixou não tem preço!



VERSOS ÍNTIMOS (Augusto dos Anjos)


Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!




tô decorando...!!!


3 comentários:

Unknown disse...

José..
Tenho, como um das poucas heranças de família, um livros antigos, "do tempo q a vovó era gostosa"...rs.. sabe ? Entre eles, Augusto dos Anjos. A tristeza que havia na alma dessa criatura, não bate... não se afina com a alegria natural de uma libriana como eu..rs..
Mas ... como gostonão se discute, né ? ´
Acho até q vou procurar o referido volume. Quem sabe lhe empresto.

Mariana disse...

zeh... teu blog tah massa!
tudo parece ser muito bom qdo tem o "mano zeh" na assinatura...
vê só - cof cof - eh tô gripada tb.. rs rs quer dizer estive gripada, já passei pelo resfriado... Chazinho, xarope, limão na goela, leite quente, sopinha, etc e tal. Agora infelizmente tô na fase gogal.. ieco!!
Mas falando de Poesias, lembrei-me de Pablo Neruda, uma das coisas boas da época Fred Pontes - rs rs, vc conhece, gosta, odeia?! Eu adoro demais!!

bjs e vc é besbo debais

Anônimo disse...

Tô besta, que experiência!=/
Muito doido isso!
Mas eh algo muito fascinante que o ser humano atribua as sitações arte, sabores, cheiros. E viajando nessa história pode se perceber a necessidade do ser humano de expressar, de destacar a barbarie do cotidiano em algo espetacular quase q imortal!
Mas são esses momentos - nem sempre- esporádicos q tornam a tragédia em comédia, pois estão marcados e simbolizados!