quarta-feira, 21 de março de 2007

Eu era espaço vazio puro - Stela do Patrocínio

(Stela do Patrocínio)


Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo


Eu era ar, espaço vazio, tempo


E gases puro, assim, ó, espaço vazio, ó


Eu não tinha formação


Não tinha formatura


Não tinha onde fazer cabeça


Fazer braço, fazer corpo


Fazer orelha, fazer nariz


Fazer céu da boca, fazer falatório


Fazer músculo, fazer dente


Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas


Fazer cabeça, pensar em alguma coisa


Ser útil, inteligente, ser raciocínio


Não tinha onde tirar nada disso


Eu era espaço vazio puro




Em meados da década de 1980, a artista plástica Neli Gutmacher foi convidada pela psicóloga Denise Corrêa para montar um ateliê na Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, a mesma onde viveu Artur Bispo do Rosário.
Foi lá que ela conheceu, junto com suas estagiárias, Stela do Patrocínio, uma interna, negra, alta, que possuía uma fala peculiar, com alto teor poético.
Uma das estagiárias, Carla Guagliardi, impressionada pela força dessa fala, guardou as fitas gravadas com Stela, que quase 15 anos depois foram transcritas, em forma de poesia, pela poeta Viviane Mosé. “Reino dos bichos e dos animais é o meu nome” é a reunião destas transcrições poéticas, num livro de surpreendente beleza que foi finalista do Prêmio Jabuti de 2002.



Sobre o livro



Trata-se de um livro assombroso – pela beleza e pelos sobressaltos que provoca. Um século de psicanálise já deixou bem claro o quão tênues podem ser os limites entre razão e loucura. Ainda assim, flagrar lucidez na verborragia aparentemente caótica de Stela desperta profunda inquietação.



Armando Antenore, Folha de São Paulo






Um comentário:

Anônimo disse...

Eita Joseh !
Tu tá é escrevedor....rs...
Loucura e lucidez... universos paralelos. Em qual será q estamos ?Eu tenho medo da loucura!
Eu tenho medo da racionalidade e lucidez excessiva!

Laís