sexta-feira, 8 de junho de 2007

Zabé da Loca


Ao longe descortina-se a bucólica paisagem esculpida em rocha bruta. Os cactos formando pastos nas poucas manchas de solo apertadas entre os rochedos gigantescas e multiformes. Algumas dessas pedras gigantescas, de traços figurativos, parecem balançar ao vento, curvando-se ameaçadoramente sobre o teto das toscas casas. Morando sob um desses imensos monolitos, a maestrina e tocadora de pífano Isabel da Loca, participante do Fórum Mundial Cultural, e do alto de seu metro e cinquenta e oitenta anos, é ilustre convidada para apresentar sua arte em eventos musicais da Europa. Na mesa dessa extraordinária figura humana, apenas meio pacote de fubá e um jerimum ainda verde, para toda a família: Isabel, o filho e os netos. É assim que o Brasil incentiva a cultura.

Com filhos e netos, Isabel vive numa loca (gruta), onde come dorme e toca o instrumento de sopro.

Na entrada da toca um pequeno e magro cachorro de olhar perdido, mal abre os olhos diante dos visitantes, os turistas sertanejos.

Zabé da Loca, como é conhecida, tem 73 anos dedicados à arte musical. O irmão lhe ensinou a tocar pífano aos sete anos, em Buíque, sua terra natal, no estado de Pernambuco. Recentemente, Isabel gravou um CD, com cantorias que fazem parte do acervo folclórico regional, onde toca e canta acompanhada dos músicos da Serra da Matarina, no Município de Prata, nos Cariris Paraibanos. O canto de Zabé é mais um sussurrro, daqueles que vivem entrincheirados vendo a vida passar lá fora, e os de fora pouco se importando com os que estão alí dentro, da rocha.

É isso mesmo, Isabel parece ter vivido tempos geológicos na idade da pedra. Foram necessários dezenas de anos para que o talento de Zabé fosse reconhecido.


Ó de casa, ó de fora

Maria vai vê quem é,

Maria vai vê quem é...

É os cantadô de rei

É os cantadô de rei

Quem mandô foi São José

Quem mandô foi São José.


Além do Bendito São José, Isabé e Banda registraram no CD verdadeiras pérolas do canto popular, como a Briga do Cachorro com a onça, Pifada na loca, Alvorada de todos os santos, Meu loro dê cá o pé, e outros.

"Imersa no mundo animal, bem melhor que o dos homens, entre cobras e lagartos"


Texto: Giovanni Seabra

Um comentário:

Anônimo disse...

Quantas outras Zabes..perdidas em nosso Pais?

Meu maior respeito para esta " Dama da Musica"